O que vem da raiz

Ninguém me ensinou a fazer torço… Parece que a gente simplesmente sabe fazer. E torço, lá na casa de mainha, não era roupa de sair, era uma coisa que se coloca no cabelo quando não se tinha tempo para cuidar dele.

Na minha adolescência comecei a ter sonhos em que via mulheres tribais, com longas tranças e colares de osso. Acordava no meio da noite para desenhá-las. Desenhei a não mais poder. Em papel, em azulejo… onde dava. Foi nessa época que comecei a ver beleza naqueles panos enrolados na cabeça. Quando caminhava pela Avenida Sete, e via meu reflexo na vitrine, tinha sempre uma sensação muito desconfortável, um estranhamento… Que se esvaia quando eu estava protegida pelo meu torço. Mesmo que o torço fosse então coisa estranha, usada só dentro de casa, ou por pessoas do movimento negro.

As visões noturnas vieram me salvar. Não demorou muito até que eu comecei a colocar meu rosto, mentalmente, naqueles desenhos. Até que tomei coragem para parar de alisar o cabelo, até que ousei fazer as tranças.

Fiquei 8 horas dentro de um barraco a menos de 1km da minha casa, sentada entre as pernas de uma mulher estranha, sentindo uns cheiros que nunca senti antes e que até hoje me dão uma sensação de conforto e de raiz, ouvindo reggae. Hoje reconheço que durante aquelas 8 horas, enquanto mãos ágeis trançavam meu cabelo, minha história, minhas lembranças, minha própria alma estava também sendo tramada, re-inserida na trama de um tecido milenar da minha cultura, da minha raiz. Foi ali, naquele barraco que re-encontrei minha alma ancestral.

***

Hoje, um dia banal, um dia como outro qualquer, eu que insisto em contar e recontar histórias que conectam minhas filhas a esta mesma trama de cultura e etnia, a despeito da pele mais clara, pela primeira vez coloquei seus turbantes… e me emocionei entendendo que mais uma ponte vai se construindo, desta vez “hacia el futuro”.

Eu sou. Porque somos.

lianina

1 ano

 

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Aprendi com um amigo, que aprendeu com outro amigo, esta peça de sabedoria: “A coesão se dá quando há partilha”. Estas palavras, hoje, mais do que nunca fizeram sentido para mim e me ensinaram da forma mais profunda que a alegria plena é vivida em comunidade.

Partilhamos e celebramos. Teve gente que foi a São Paulo buscar flores, houve gente que plantou, gente que assou, que comprou, que montou, que arrumou, cantou, ensaiou, ajeitou, cortou e pendurou. Teve gente que desmontou, organizou, limpou. Teve gente que confiou e que acolheu. Esta escola é fruto de doação e de colaboração.

Juntos celebramos e usufruímos da beleza e da riqueza que existe na nossa comunidade.

A nossa escola completa um ano de vida, e como disse uma das crianças: “Agora ela vai começar a andar”.

O Theo, que só tem 3 anos, me lembrou algo muito importante: estamos no inicio da nossa vida, passando por aquelas conquistas que são o fundamento e a base de quem nos tornaremos quando formos adultos. Crescemos e aprendemos um pouco a cada dia. Juntos.

Sou Val Rocha, mãe de Lia e Nina. Na pedagogia Waldorf encontrei acalento para minha alma, para a busca de uma forma de educar as minhas filhas que fosse alinhada com os meus valores. Quase perdi isso quando descobri que não havia ensino fundamental Waldorf em Santos, por sorte, ou por destino, me vi entre pessoas loucas o suficiente para criar uma nova escola, uma escola associativa, uma escola de todos nós. Este é só mais um capítulo da nossa história.

 

 

 

Dona Lia

Ela se parece comigo… mas se parece mais com o pai.

Lia tem 9 anos e ultimamente inventou de ser cozinheira. O problema é que seguir receita é uma ofensa para ela, uma prisão para a sua criatividade. O resultado da sua ousadia com a pouca experiência culinária é muitas vezes… hã… digamos… interessante.

Venho tentando convencê-la a testar e confiar em receitas, a planejar e a partir de algo conhecido antes de improvisar, tudo sem muito sucesso. Hoje apresentei para ela a cozinha divertida da Dani Noce, ela seguiu a receita ao pé da letra, e o resultado ficou maravilhoso!

Confesso que fico mais tranquila assim, sem ter que provar receitas exóticas, saídas da cabeça de uma pequena mestre cuca.

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A gente fica mordido, não fica?

A primeira vez que o vi fiquei estarrecida. É homem ou é mulher? É gay? É transgênero? Como é que a gente pode chamar esta pessoa que tem barba de homem, movimento lânguido de mulher, olhar penetrante de vidente e uma voz que traduz tudo isso ao mesmo tempo?

Ele é sexy, o mais sexy de todos os seres que já vi sobre a terra.

Chamo ele de Liniker e fico grata pela sua juventude irreverente, suas letras pungentes, sua voz… maravilhosa.

Não cabe nem um décimo na malinha de mão, mesmo assim vale a tentativa de guardar este artista no coração.

On my own

Porque este aqui é o meu baú de memórias. A caixa forte das minhas lembranças – que espero seja para sempre um lugar seguro… e porque um dia, vou tentar lembrar desta música, dos meus dias de menina, de como uma grande emoção me invadia, e mesmo sem entender a letra, lágrimas rolavam pelo meu rosto.

Lá no fundo da minha memória haverá só um eco… Como pode isso desaparecer de mim? Não! Me recuso. Essa voz, essas palavras, essa menina… isso tudo me pertence e agora tomo posse. Se eu esquecer… passo aqui para lembrar!

 

On My Own

Nikka Costa

Sometimes I wonder where I’ve been
Who I am, do I fit in
Make belivin’ is hard alone
Out here on my own
We’re always provin’ who we are
Always reachin’ for that risin’ star
To guide me far and shine me home,
Out here on my own.

When I’m down and feelin’ blue
I close my eyes so I can be with you
Oh baby, be strong for me,
Baby, belong to me
Help me through, help me need you.

Until the morning sun appears
Making light of all my fears,
I dry the tears I’ve never shown
Out here on my own.

When I’m down and feelin’ blue
I close my eyes so I can be with you
Oh baby, be strong for me,
Baby, belong to me
Help me through, help me need you.

Sometimes I wonder where I’ve been
Who I am, do I fit in.
I may not win but I can’t be thrown,
Out here on my own
Out here on my own, on my own.

O Golpe

Este lugar eu criei para compartilhar inspiração. Hoje profano estas linhas, porque aqui também é um canto onde escrevo o que carrego no coração, e hoje é tristeza.

Gostaria que um dia, quando me falhar a memória, eu possa voltar aqui e ler os textos publicados e não publicados, que traduzem um pouco do que me vai por dentro.

Daqui a muitos anos vou olhar para traz e lembrar que vivi este momento do golpe de estado disfarçado de impeachment no Brasil. E se por acaso eu morrer, antes de poder contar para a minha filha o que se passava na minha cabeça, quais eram os meus sentimentos… o que se dizia na época, bem… decidi fazer uma colagem de coisas que representam estes dias sombrios.

Este é o texto que publiquei no Facebook na noite do Golpe

Estou exausta.
Assisti outro dia um vídeo falando sobre detração – a arte do maldizer, falar mal dos outros. Me dou conta de como isso faz mal para mim: detratar e ser detratada.
Eu fiz uma escolha, eu e mais 54 milhões de brasileiros. Fomos vencidos hoje, por 61.
Eu estou triste, desolada é a melhor palavra. Falo de mim mesma para não falar dele, para não falar deles, que fazem ouvidos moucos… Não ouviram 54 milhões de vozes, porque escutariam uma só?
Não tenho nada de bom para falar do Cunha, do Temer, e de outros senhores e senhoras que ontem me enojaram no senado. Então fico aqui… enchendo a minha vesícula de veneno, e o meu pulmão de tristeza.
Tem tanta gente que eu amo que acha que tudo bem, e eu nem sei o que dizer para eles… Nem sei o que perguntar para eles. Tenho convicção na minha posição. Acredito que eles também tenham nas suas.
Fico buscando dentro de mim a luz que possa me guiar neste momento, em que tudo o que vejo é escuridão. Agir com honradez, a partir do que considero certo e justo, não a partir do rancor, da raiva, da inveja, da vingança.
Que o sono acalme meu coração.
Hoje é 31 de Agosto de 2016, um dia para jamais esquecer, o dia em que um senado repleto de pessoas acusadas por crimes votou pelo afastamento de uma líder eleita nas urnas, sem ter provado que ela tenha cometido qualquer crime.
Hoje foi o dia em que uma pessoa que pode pleitear qualquer cargo público nas próximas eleições foi destituída para dar posse a outra pessoa que está impedida de pleitear cargos públicos pelos próximos 8 anos.
Hoje é o dia em que nosso país sofreu um difícil golpe, o dia em que a minha fé fica abalada, e que tenho muita dificuldade de olhar nos olhos da minha filha com esperança.
Fico imensamente grata pela fé, esperança, beleza e alegria que ela me devolve no olhar.
Amanhã vai ser outro dia, já passamos dias ruins antes.
Vamos arregaçar as mangas, porque eu não conto com nenhum daqueles 61 senadores para construir o país que sonho.
E sim, hoje está difícil, mas amanhã começo a tarefa árdua de alimentar minha habilidade de sonhar.
Boa noite.

Este vídeo traduz o papel da mídia no golpe

Princess Shaw

Ontem de forma descuidada acabei lendo um artigo muito bom na internet, mas desses que deixam o olhar da gente mais sombrio. Me peguei o dia inteiro carregando o peso da preocupação com  o futuro do mundo, e o desânimo da desesperança. Em pleno domingo? Sério?!

Pois é… Mas é quando menos se espera…

Fui assistir um filme totalmente desavisada, e encontrei alimento para a minha alma. Eu sou uma dessas pessoas que acredita (mesmo!) em tudo de bom que há na humanidade, tenho provas constantes de que somos (também) capazes de criar maravilhas.

Meu coração não cabe em mim cada vez que lembro deste ser humano: Kutiman. Ele é um cara, de Israel, que navega pela internet ouvindo músicas e sons, pega tudo isso, recorta e remonta criando belas sinfonias a partir do que muita gente de forma muito generosa pôs no mundo. E ele arremata sua bela obra de arte com elegância compartilhando todos os links dos trabalhos originais. Eu achei isso genial. Maravilhoso. Apaixonante.

Pois… Alguém disse que enquanto vemos imagens e músicas na internet, o Kutiman vê notas musicais. Eu discordo. Eu desconfio que além das notas ele enxerga histórias, e beleza. E é esta beleza que ele compartilha conosco.

Conheci o trabalho do Kutiman por causa do “Presenting Prices Shaw”, um filme um tanto estranho se a gente começa a se perguntar como é que foi feito… Mas deixando essa parte para lá, não tem como não se apaixonar por esta mulher que teve sim uma história cheia de dor e sofrimento, mas cuja alegria e a capacidade de amar são pungentes. Isso fica claro para mim quando ela encontra a ex-namorada, Olivia. Quando encontra pessoas pela rua, quando assiste outros músicos se apresentarem. Sempre fico muito grata e inspiradas por pessoas que mesmo tendo sofrido as maiores brutalidades, mantém a força de seguir amando. Samantha é assim. E sua alegria e charme me lembram muito alguém que amo demais!

Kutiman fazendo o que faz de melhor dá um presente para esta mulher que é como um cobertor quentinho em uma noite chuvosa e fria. É puro amor o que ele faz com a música da Princesa. Eu senti todo esse amor aqui.

Acho que vai demorar muito tempo (espero que sim), para que essa emoção se desvaneça em mim. Desde ontem ela me toma inteira. E eu me sinto mais viva, sabendo que existe gente por ai a fora que alimenta sonhos, que sente medo, que sofre, que ri por bobagens, que valoriza a amizade… Eu vi a estória da Samantha, e não posso deixar de pensar que cada nota naquela canção, carrega em si ao menos uma história… me perco em pensamentos imaginando quem são, caio no sono apaixonada pela humanidade.