Esse sorriso…

Que moleca essa menina… Ela é sapeca, não para um instante, ela é danada e me dá trabalho. Ela é birrenta e abusa da minha paciência. Mas o pior de tudo, a mais vil das suas artimanhas, a sua arma mais poderosa e que usa sem qualquer pudor, é o carinho leve que faz no meu braço, sem palavra, com o olhar suplicante e cúmplice ao mesmo tempo. Quando percebe que se excedeu pede desculpas, faz beiço de choro. Aos 5 anos Nina é geniosa, esquecida, avoada, alegre, manhosa… se diverte até com a própria sombra, acorda devagar e se enrosca com carinho em quem ganha o seu afeto. Amo até não mais poder esse sorriso maroto, esse cabelo pro ar, essa menina leão, brava e doce ao mesmo tempo.

Amo e não me canso de tanto amar.

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Requisitos para ser uma pessoa normal

O filme é despretensioso, tem uma estética que adorei – pelas cores, pelos objetos, pelas texturas… E um enredo que mais parece uma conversa, o tipo de coisa que procuro para o final de dias longos e cansativos.

À mesa

Uma das grandes mudanças que aconteceram na minha vida, com a maternidade, foi a mesa. A mesa posta. As refeições à mesa.

Até hoje não sei onde colocar os talheres, quando quero acertar pesquiso no pinterest e confesso que o jeito que me é natural não é o que orienta a etiqueta… Pouco me importa.

Tenho lá os meus requintes: gosto de flores frescas e muitas, não podem faltar… gosto de louça e talheres de qualidade, uma toalha de algodão, macia e gostosa de tocar e guardanapos de tecido, claro! Isso não é todo dia. Tem dias especiais…

Para o domingo de Páscoa me dei conta, às 11 da noite, que apesar de todos os cuidados e dos enfeites que comprei para surpreender as meninas faltariam os guardanapos de tecido. Não sei onde se enfiaram, mas não achei mais do que 2 da cor que queria. Sem problemas: fui aprender como fazer um guardanapo mitrado e costurei 4 naquela noite. Quando terminei de montar a mesa, preparar os waffles, fazer os guardanapos, etc., eram 2 da manhã.

Foi ai que tive a epifania… Enquanto costurava comecei a me perguntar porque esta fixação com a mesa posta, com a mesa bela, logo eu… logo eu que não tive uma refeição ao redor da mesa com a família reunida até entrar na vida adulta. A primeira vez que tive direito de sentar à mesa da minha avó, foi quando apresentei o meu namorado (hoje marido) à família. Antes sentava com os demais, espalhados pelo quintal da casa de minha avó. No fundo no fundo eu pensava: um dia vou ter uma família e vamos sentar à mesa. Eu achava que famílias que funcionavam sentavam à mesa e faziam as refeições junto.

Hoje sei que não é bem assim. Mas dou razão à pequena Val, o rito de reunir-se ao redor da mesa é uma das formas de estar junto, conviver, desfrutar da companhia um do outro e assim se reconhecer.

Trazer isso à consciência me ajuda também a compreender que tanto faz a mesa, tanto faz os talheres, tanto faz o que comemos… que estejamos em circulo, que estejamos frente a frente um com o outro, que nos olhemos nos olhos, ainda que seja para discordar… ai construímos a nossa família.

Por mais que me alegre preencher de beleza a mesa ao redor da qual sentamos, é a matéria invisível que nos conecta que quero seguir cultivando.

Feliz Páscoa!

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mesa posta

Vívida

Que tem vivacidade.Brilhante, fulgurante.Vivo, ardente.Que ilumina, que esclarece.Que tem cores vivas.

Nos últimos meses assisto à sua transformação: ela está crescendo. Em alguns meses vai completar 5 anos e tem alguma coisa que se transforma muito na criança nesta idade. Ninguém me contou isso e nem eu estudei nada. Eu vejo na Nina.

“Já que isso, então aquilo”. Esta é a frase do mês. Nitidamente ela começa a analisar situações e tirar suas conclusões. Às vezes são lógicas e outras vezes são hilárias.

“Já que vocês são os melhores pais do mundo, e cozinham coisas que nós não sabemos… são os melhores pais cozinheiros do mundo!”

Do alto dos seus -quase – 5 anos de vida muito bem vividos, ela vai construindo o seu conhecimento sobre a vida. Escolhendo o que gosta, e se maravilhando com cada descoberta. Ama música e se divide entre a clássica, MC Sofia, Sia, Titãs,Nico Nicolaiewsky e outras tantas…

Ela sempre foi uma criança do movimento, agitada. Nina Furacão. E continua sendo 🙂

Mas a encontro mais concentrada estes dias. Anda apaixonada pela dança, pelo movimento e pela recém adquirida habilidade de criar suas coreografias, que aliás requerem uma certa pompa: Não começa a dançar sem escolher a música, sem colocar a roupa, sem afastar as poltronas e trazer a cadeira  – seu objeto de cena favorito.

Eu me delicio assistindo sua dança, com a sensação de que bem ali, diante dos meus olhos se revela o mistério da vida. E como ela é bonita.


O que vem da raiz

Ninguém me ensinou a fazer torço… Parece que a gente simplesmente sabe fazer. E torço, lá na casa de mainha, não era roupa de sair, era uma coisa que se coloca no cabelo quando não se tinha tempo para cuidar dele.

Na minha adolescência comecei a ter sonhos em que via mulheres tribais, com longas tranças e colares de osso. Acordava no meio da noite para desenhá-las. Desenhei a não mais poder. Em papel, em azulejo… onde dava. Foi nessa época que comecei a ver beleza naqueles panos enrolados na cabeça. Quando caminhava pela Avenida Sete, e via meu reflexo na vitrine, tinha sempre uma sensação muito desconfortável, um estranhamento… Que se esvaia quando eu estava protegida pelo meu torço. Mesmo que o torço fosse então coisa estranha, usada só dentro de casa, ou por pessoas do movimento negro.

As visões noturnas vieram me salvar. Não demorou muito até que eu comecei a colocar meu rosto, mentalmente, naqueles desenhos. Até que tomei coragem para parar de alisar o cabelo, até que ousei fazer as tranças.

Fiquei 8 horas dentro de um barraco a menos de 1km da minha casa, sentada entre as pernas de uma mulher estranha, sentindo uns cheiros que nunca senti antes e que até hoje me dão uma sensação de conforto e de raiz, ouvindo reggae. Hoje reconheço que durante aquelas 8 horas, enquanto mãos ágeis trançavam meu cabelo, minha história, minhas lembranças, minha própria alma estava também sendo tramada, re-inserida na trama de um tecido milenar da minha cultura, da minha raiz. Foi ali, naquele barraco que re-encontrei minha alma ancestral.

***

Hoje, um dia banal, um dia como outro qualquer, eu que insisto em contar e recontar histórias que conectam minhas filhas a esta mesma trama de cultura e etnia, a despeito da pele mais clara, pela primeira vez coloquei seus turbantes… e me emocionei entendendo que mais uma ponte vai se construindo, desta vez “hacia el futuro”.

Eu sou. Porque somos.

lianina

1 ano

 

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Aprendi com um amigo, que aprendeu com outro amigo, esta peça de sabedoria: “A coesão se dá quando há partilha”. Estas palavras, hoje, mais do que nunca fizeram sentido para mim e me ensinaram da forma mais profunda que a alegria plena é vivida em comunidade.

Partilhamos e celebramos. Teve gente que foi a São Paulo buscar flores, houve gente que plantou, gente que assou, que comprou, que montou, que arrumou, cantou, ensaiou, ajeitou, cortou e pendurou. Teve gente que desmontou, organizou, limpou. Teve gente que confiou e que acolheu. Esta escola é fruto de doação e de colaboração.

Juntos celebramos e usufruímos da beleza e da riqueza que existe na nossa comunidade.

A nossa escola completa um ano de vida, e como disse uma das crianças: “Agora ela vai começar a andar”.

O Theo, que só tem 3 anos, me lembrou algo muito importante: estamos no inicio da nossa vida, passando por aquelas conquistas que são o fundamento e a base de quem nos tornaremos quando formos adultos. Crescemos e aprendemos um pouco a cada dia. Juntos.

Sou Val Rocha, mãe de Lia e Nina. Na pedagogia Waldorf encontrei acalento para minha alma, para a busca de uma forma de educar as minhas filhas que fosse alinhada com os meus valores. Quase perdi isso quando descobri que não havia ensino fundamental Waldorf em Santos, por sorte, ou por destino, me vi entre pessoas loucas o suficiente para criar uma nova escola, uma escola associativa, uma escola de todos nós. Este é só mais um capítulo da nossa história.

 

 

 

Dona Lia

Ela se parece comigo… mas se parece mais com o pai.

Lia tem 9 anos e ultimamente inventou de ser cozinheira. O problema é que seguir receita é uma ofensa para ela, uma prisão para a sua criatividade. O resultado da sua ousadia com a pouca experiência culinária é muitas vezes… hã… digamos… interessante.

Venho tentando convencê-la a testar e confiar em receitas, a planejar e a partir de algo conhecido antes de improvisar, tudo sem muito sucesso. Hoje apresentei para ela a cozinha divertida da Dani Noce, ela seguiu a receita ao pé da letra, e o resultado ficou maravilhoso!

Confesso que fico mais tranquila assim, sem ter que provar receitas exóticas, saídas da cabeça de uma pequena mestre cuca.

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