O Sal é um dom

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Foi a D. Canô quem disse em um livro que virou um clássico aqui em casa. Sempre tive a curiosidade de saber porque o sal valia tanto. A primeira pista veio de um documentário que vi num relance durante a mudança frenética de canais em busca de alguma coisa que pudesse prender a minha atenção. E foi o sal. Era no Tibete a aventura que levava os homens de uma tribo numa peregrinação sagrada em busca do sal. Ali comecei a entender, muito de longe, o que significa o sal para a manutenção da vida em condições extremas. O documentário se chamava Os Homens do Sal do Tibete, e a memória que me ficou é linda.

Mas claro, isso era muito longe da minha realidade: homens nômades no Tibete. Já na minha cozinha, tudo o que leio da D. Canô lembra o que sou e o que fui. Lembra o que vivi e de onde vim. Às vezes é quase como ouvir uma conversa entre as mulheres da minha família, a troca de receitas imprecisas, na minha forma de entender o mundo. As medidas carregadas de “um pouquinho” ou “até você ver que deu o ponto”, sempre pareceram uma outra língua, sempre desconfiei que elas tinham um código secreto que esqueceram de me contar.  Elas também falam do sal… de um jeito mítico: “está sem sal: dá pra sentir pelo cheiro”. Sempre achei isso improvável, no mínimo um exagero.

Nos caminhos que a vida me levou encontro uma e outra pessoa, aprendo novas receitas e num destes encontros ouço uma jovem arquiteta, urbana, descendente de italianos falar do cheiro do sal. De novo esta história… e começo a me convencer que existe uma raça especial de mulheres, com um olfato super desenvolvido e uma intuição idem. Mulheres mágicas que sabem dentre outras coisas, encontrar o sal.

Eis que D. Canô, do alto da sua sabedoria traduz em simplicidade, meu jeito complexo de ver o mundo: “O sal é um dom”. Ela explica que há que usá-lo com moderada atenção, é o segredo de todas as comidas e saber dosá-lo é um dom.

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E tudo isso porque este fim de semana resolvi por a casa à baixo e arranjar lugar para tudo. No meio de tudo encontrei um lindo pote. Tão lindo que ficou sentado em uma gaveta aguardando algo de muito valioso, muito especial, um conteúdo digno de si. E assim, do nada me veio a ideia de guardar ali o que permitiu que a vida chegasse até aqui, o que na nossa casa até outro dia, ficava no pote de plástico encardido, o dom da vida, o sal da terra.

Tudo isso para que uma presença, um amor, uma amizade, esteja presente e nos alimente (ainda mais) todos os dias.

A vida não é nada sem estas pequenas coisas carregadas de significado e as coisas não são nada se não estão carregadas de pequenos pedaços de vida.

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