Uma escola e um sonho

Tenho duas filhas. E o fato de ter me tornado mãe mudou a minha vida para sempre.

Estou completamente consciente do quão piegas é esta frase. O quanto foi repetida e está desgastada. Mas ao mesmo tempo não vejo outra forma de colocar. Tenho aprendido muito sobre a vida e as relações humanas desde que me tornei mãe. Eu não sou uma daquelas pessoas que sempre tiveram o instinto maternal aflorado ou jeito com criança. Acredite, estou aprendendo.

Nesta jornada de aprender fazendo, há três anos me apaixonei pela Pedagogia Waldorf, uma paixão que cresceu imensamente desde que a minha filha mais velha entrou para o fundamental.

A beleza, a suavidade e a leveza são equilibrados com disciplina, responsabilidade e compromisso. Ana Lúcia Gallo é oficialmente a professora da Lia, e extra-oficialmente a professora de toda nossa família. Ela ganhou a minha simpatia e respeito quando me apresentou com muito carinho o fundamental Waldorf, e ganhou minha admiração profunda quando nos recebeu em sua sala de aula para dizer que a Lia passou para o 2o ano fundamental. Ela não fez isso com um boletim cheio de notas, mas com um boletim escrito a mão (SIM, é válido no MEC!) explicando detalhadamente o comportamento da minha filha, suas qualidades e seus desafios, assim como suas conquistas. Para celebrar um poema, único, um presente da Ana para a Lia. Não qualquer poema, mas um que capturava a sua essência. Não pude conter as lágrimas, mas não foi previlégio meu, todos os outros pais e mães estavam na mesma situação.

boletim 1o Fundamental

Para quem me pergunta como ela vai se preparar para a vida se passa o tempo só brincando… bem, eu posso mostrar parte do trabalho feito pela Lia nos cadernos que ela produziu no primeiro ano, e nos projetos que realizou nas aulas de artes manuais. As crianças produziram muito, uma produção lindíssima, que fizeram com determinação e alegria.

colagem de Lia

Como em tudo o mais na vida, existem problemas, existe frustração, existe conflito. E lidamos com eles, e crescemos com eles.

Somos uma escola. Me incluo nela, porque aprendo com ela, e também porque ajudo a construí-la ativamente. Isso faz parte da natureza de uma escola Waldorf, e estou descobrindo que faz parte da minha natureza também.

Tem gente com muito mais habilidade do que eu para falar sobre o tema. Assisti a este vídeo pela primeira vez ha 2 anos, e ele continua me encantando como se o visse pela primeira vez.

Como é bom brincar

A fonte do meu Mac estragou… agora dependo da fonte de energia alheia para usar o computador… então por esses (eternos 10 dias) que a assitência técnica vai levar para substituir a peça não consigo escrever aqui no blog… fazer o que? Costuro mais um pouco, afinal volto ao trabalho na segunda-feira. 

Aproveitando esses 22% de energia que me restam, quero compartilhar o presente maravilhoso que recebi da amiga Andreia Alvarez que me apresentou o projeto Território do brincar. O video é auto explicativo e inspirador… Me lembrou como eu adorava brincar de “roda”, de bambolê e baleado, que aqui em São Paulo se chama queimada acho eu. E você? Quer brincar de quê?

watch?v=NtX-lOAdvRM&feature=player_embedded

 

O dicionário vivo

A definição não é do Aurélio – o mais-mais da minha época – mas serve:

a.ban.do.nomasculino [Datação: 1772]

  1. ato de abandonar
  2. desamparo total
  3. renúncia
  4. desprezo
  5. desleixo

Lia é uma menina muito inteligente. Ela aprende novas palavras a cada dia e as utiliza de forma adequada na primeira oportunidade que se apresenta. Hoje foi um desses dias que me senti uma mãe atenta e presente, o que não sou sempre.

Logo cedo, brincando com suas bonecas enquanto eu checava os e-mails, ouvi quando a filha da Barbie disse:

– Oh não! Fiquei perdida e agora minha mãe me abandonou e adotou outra filha!

Lia então levou a pequena Barbie para perto da mãe Barbie que agora tinha uma Polly como filha. Não deu para ouvir o resto da conversa, mas ficou tudo bem e logo a pequena Barbie e a Polly eram irmãs queridas.

No segundo episódio do dia, a filha mais problemática da Lia, estava com a perna machucada. Lindinha é uma boneca que fala, que ja está bem velha, cabelo embaraçado, e há muito tempo já não tem roupa. Lia sempre fala de como a Lindinha se comporta mal: ela bate, responde, não obedece, não come… Lindinha é o cão!

Mas desta vez ela foi a vítima.. Lia me disse que o primo da Lindinha o machucou. Ela disse também que era um menino muuuuito mal criado:

– Ele bate na mãe, ele morde, ele faz muita mal criação! E ele bateu na lindinha aqui na perna ó.

E continua:

– Ele é tão mal criado que a mãe dele ficou cansada e abandonou ele!

Tivemos um dia cheio… mas no finalzinho da tarde com a Nina (2 meses) alimentada e dormindo em berço esplêndido eu e Lia ficamos brincando na sala até que eu puxei o assunto:

– Sabe filha, você me contou que a mãe do primo da Lindinha o abandonou porque ele era muito mal-criado. Mas eu queria te dizer que não é isso que os pais fazem, quando uma criança se comporta mal eles educam, não abandonam. Eu nunca vou te abandonar.

– Mas se eu me comportar muuuuito mal, você pode até me abandonar, né?

– Não… se você fizer mal-criação eu te coloco de castigo, e continuo te amando. Se você pular no sofá, eu brigo com você, e continuo te amando. Se você bater em alguém… castigo de novo. Mas nunca vou te abandonar, porque você é minha filha e eu te amo, porque eu iria te abandonar?

– Mas e se você se esquecer de mim? Ai você me abandona, né?- E fez uma carinha que misturava coragem e medo de ouvir a resposta…

– Como eu poderia esquecer de você?

– Brincando só com a Nina, o tempo todo.

– Ahhh… mas isso não acontece, porque eu tenho um tempo que é só para você, tem coisas que só você sabe fazer e eu adoro ficar com você, sozinha… como estamos agora. Ela riu e me abraçou forte.

Às vezes a gente tem que ir além do discurso… na verdade com as crianças, precisamos fazer isso o tempo todo.

#aprendendocomosfilhos