Passageiros, uma inspiração do Blog do Bergamo

Blog do Bergamo: Passageiros.

Adorei o poema que me lembrou muito a sensação que tive quando o meu pai morreu.

Foi muito estranho.

Eu já tinha pensado muitas vezes na sua morte… não sei porque, mas já havia pensado: em como me dariam a noticia, como a receberia, como seria a vida depois que ele se fosse. Nunca pensei que fosse acontecer como aconteceu.

Meu pai morreu de um infarto fulminante do miocardio… ou seria infarto do miocardio, fulminante? Acho que o primeiro é o certo. Nunca tinha ouvido falar disso e até hoje quando repito pra alguém as palavras parecem saídas de um livro e não da minha boca.

O dia que o meu pai morreu ficou gravado na minha mente, foi um dia trivial mas muito feliz, um dos mais felizes que já tive. Estava com minha irmã e nossas amigas, as meninas. As meninas são três irmãs que conheci  no colegial e que hoje, mais de 20 anos depois, continuam sendo pessoas muito importantes na minha vida… ainda que não nos vejamos tanto quanto eu queria, ainda que não compartilhemos mais segredos, ainda que nossas vidas tenham seguido pelos caminhos mais diversos… Eu continuo amando as três + minha irmã. Continuo sentindo no fundo da minha alma que sou porque somos, porque fomos.

Mas “as meninas” são só um parêntesi hoje. Hoje é sobre o meu pai.

Depois de passar esse dia na Barra juntas. Cheguei em casa à noite e notei a quantidade de gente em frente ao portão… Nasci e me criei nesse bairro e não era incomum essas aglomerações nas frentes das casas, as pessoas celebravam juntas e se amparavam nos momentos de tristeza. Por isso mesmo pensei: quanta gente, parece até que morreu alguém… Little did I know…

Quando entrei na casa, não lembro a ordem das coisas. A partir dai tenho flashs de lembrança: eu soluçando no chuveiro, eu no velório com as meninas, eu indo para casa e minha tia lembrando que deveríamos ir direto para casa e não parar por ai para nos divertir (?!)… Mas a mais forte lembrança, durante o velório olhando tudo ao meu redor, foi a de que a vida não seria para sempre assim. Tinha certeza que toda a dor, tristeza, abandono e arrependimento… tudo ia passar. Eu só tinha que suportar atravessar esses dias até lá. Little did I know…

Não foram dias, nem foram semanas… foram meses e anos.

Fiquei esperando por muito tempo que ele saisse da minha vida, meu pai fantasma. Sempre achei que não recebi o pai que merecia. Queria um pai mais doce, mais “estudado”, mais presente.

Depois que meu pai morreu, passei anos com a sensação de que o fantasma dele me seguia. E tinha razão. Ele não saiu do meu lado. Foi ele quem me mostrou o que fazer quando não tinhamos dinheiro: ele me lembrou que me ensinou desde os 14 anos a trabalhar. Ele me ajudou a permanencer na universidade me lembrando o quanto educação é importante. Ele me ajudou a abrir o meu escritório com um pequeníssimo capital inicial e a lembrança de que é preciso se arriscar e ousar.

Depois que o meu pai morreu percebi, ao longo dos anos, que tudo o que ele me ensinou e tudo o que vivemos juntos me transformou em quem sou. Entendi que ele foi um pai maravilhoso, nunca foi perfeito, só um pai possível. E isso é muito.

Meu querido Dornelis um dia me deu uma tarefa na terapia: ir até o túmulo do pai. O que diria pra ele, me perguntou. Na época eu pensei em qualquer coisa que pudesse dizer para magoá-lo muito, acusações pra ele se sentir bem culpado por tudo o que não deu certo… nada me satisfez, nenhuma resposta pareceu verdadeira e eu nunca fiz a minha tarefa.

Hoje não preciso ir até o túmulo em Salvador, e não preciso pensar muito. O que brota do meu coração, e que eu posso dizer em alto e bom som para o meu pai é: gratidão e perdão. Obrigada por ter sido meu pai, me perdoe por não ter sido uma filha presente.

O pai fantasma ri seu sorriso largo e eu quase sinto o seu abraço, vinte anos depois. Te amo pai.

O dicionário vivo

A definição não é do Aurélio – o mais-mais da minha época – mas serve:

a.ban.do.nomasculino [Datação: 1772]

  1. ato de abandonar
  2. desamparo total
  3. renúncia
  4. desprezo
  5. desleixo

Lia é uma menina muito inteligente. Ela aprende novas palavras a cada dia e as utiliza de forma adequada na primeira oportunidade que se apresenta. Hoje foi um desses dias que me senti uma mãe atenta e presente, o que não sou sempre.

Logo cedo, brincando com suas bonecas enquanto eu checava os e-mails, ouvi quando a filha da Barbie disse:

– Oh não! Fiquei perdida e agora minha mãe me abandonou e adotou outra filha!

Lia então levou a pequena Barbie para perto da mãe Barbie que agora tinha uma Polly como filha. Não deu para ouvir o resto da conversa, mas ficou tudo bem e logo a pequena Barbie e a Polly eram irmãs queridas.

No segundo episódio do dia, a filha mais problemática da Lia, estava com a perna machucada. Lindinha é uma boneca que fala, que ja está bem velha, cabelo embaraçado, e há muito tempo já não tem roupa. Lia sempre fala de como a Lindinha se comporta mal: ela bate, responde, não obedece, não come… Lindinha é o cão!

Mas desta vez ela foi a vítima.. Lia me disse que o primo da Lindinha o machucou. Ela disse também que era um menino muuuuito mal criado:

– Ele bate na mãe, ele morde, ele faz muita mal criação! E ele bateu na lindinha aqui na perna ó.

E continua:

– Ele é tão mal criado que a mãe dele ficou cansada e abandonou ele!

Tivemos um dia cheio… mas no finalzinho da tarde com a Nina (2 meses) alimentada e dormindo em berço esplêndido eu e Lia ficamos brincando na sala até que eu puxei o assunto:

– Sabe filha, você me contou que a mãe do primo da Lindinha o abandonou porque ele era muito mal-criado. Mas eu queria te dizer que não é isso que os pais fazem, quando uma criança se comporta mal eles educam, não abandonam. Eu nunca vou te abandonar.

– Mas se eu me comportar muuuuito mal, você pode até me abandonar, né?

– Não… se você fizer mal-criação eu te coloco de castigo, e continuo te amando. Se você pular no sofá, eu brigo com você, e continuo te amando. Se você bater em alguém… castigo de novo. Mas nunca vou te abandonar, porque você é minha filha e eu te amo, porque eu iria te abandonar?

– Mas e se você se esquecer de mim? Ai você me abandona, né?- E fez uma carinha que misturava coragem e medo de ouvir a resposta…

– Como eu poderia esquecer de você?

– Brincando só com a Nina, o tempo todo.

– Ahhh… mas isso não acontece, porque eu tenho um tempo que é só para você, tem coisas que só você sabe fazer e eu adoro ficar com você, sozinha… como estamos agora. Ela riu e me abraçou forte.

Às vezes a gente tem que ir além do discurso… na verdade com as crianças, precisamos fazer isso o tempo todo.

#aprendendocomosfilhos

“Que tipo de mãe você é?”

Gosto de ler revistas, minha favorita no momento é Casa e Comida da editora globo, amo as receitas e soluções criativas para ter uma mesa bonita e para receber os amigos.

Ganhei do maridão a última edição da Pais e Filhos, pelo meu óbvio interesse em assuntos que dizem respeito ao relacionamento com as crianças. Na capa o título de um artigo chamou a minha atenção: “Que tipo de mãe você é?”

O artigo, da coluna saúde, apresenta uma classificação de estilos de alimentação criada por Sheryl Hughes e sua equipe  no Centro de Pesquisa  Nutrição Infantil de Huston, distinguindo quatro padrões diferentes. Entendo que se trate de uma pesquisa científica e meu julgamento é que nem sempre os cientistas são experts em se relacionar com pessoas, ler o artigo, só reforçou esse meu preconceito.

Os padrões apresentados são os seguintes:

  • A doida ( controladora) – só come comida saudável e exige o mesmo das crianças;
  • A mole (permissiva) – Essa aqui tem boas intenções, mas por causa da culpa, acaba cedendo sempre;
  • A equilibrista (responsiva) – essa é a mãe perfeita,  presta atenção ao filho e oferece opções saudáveis sem ser radical;
  • A nem ai (negligente) – essa é a pior mãe do mundo, ela não sabe da alimentação das crianças e nem quer saber, ela come mal e não vê problema se os filhos seguem seu exemplo;

Esse é um resumo groceiro do que li na revista e você pode ler o artigo na integra aqui ó. Mas vamos ao que me intrigou: fiquei em dúvida com relação ao objetivo do artigo, apesar do texto dizer que “ao compreender o seu estilo, é mais fácil achar estratégias para o desenvolvimento do seu filho…”.

Pra ser bem honesta, me considero uma combinação da “controladora”, com a “mole” e a “equilibrista”. Graças a Deus não me reconheci como a “negligente”, ufa! Acho que as mães “negligentes” não lêem essa revista… não combina com o perfil.

Pensando em Comunicação Não Violenta, achei a classificação muito violenta, acho difícil que os rótulos usados ali dificultam que as  pessoas se reconheçam na classificação. Se você é mãe, deve saber que o tempo inteiro nos sentimos julgadas, o tempo inteiro queremos ser melhores, queremos o melhor para os nossos filhos, sempre.

O que gostei mesmo foram das dicas para equilibrar sua forma de lidar com o tema alimentação com as crianças, achei útil e inspirador.

Outro aspecto que me intrigou foi que o artigo está dirigido apenas às mães… aqui em casa a educação alimentar é uma responsabilidade compartilhada entre os pais, e acho importante não reforçar o estereótipo da mãe que cuida de tudo e o pai que sempre responde “pergunta pra sua mãe”… Ainda que isso ainda aconteça de vez enquando, mesmo nas melhores famílias.

E você? que tipo de mãe ou pai você é?