Esperando Nina chegar

Eu, minha mãe e minha filha… esperamos Nina para ampliar e fortalecer esse círculo de mulheres, de bruxas, de poderes.

Eu amparada pela sabedoria de minha mãe, estimulada pela curiosidade da minha filha, me deparo mais uma vez, agora mais madura, mais forte… mais serena – com a oportunidade maravilhosa de receber uma nova vida.

E diante dela eu me curvo.

Bem vinda Nina!

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Em busca do sonho guru…

No inicio deste ano, me comprometi publicamente com a realização de um sonho. Não um sonho qualquer, se é que isto existe, mas um sonho que me leva de encontro às minhas raízes, aos meus maiores medos e meus melhores potenciais.

Como fazer um quilt pode ser tantas coisas assim ao mesmo tempo?

Pois é… tudo isso tem muito a ver com a minha referência máxima na vida: minha mãe. Demorei muito tempo para perceber/reconhecer a importancia dela para mim, e o quanto me influenciou e influencia. Se no passado a descrevi como alguém distante, incompreensiva e excesivamente dura, hoje a descrevo como sensível, amorosa, extremamente talentosa… Mudou ela ou mudei eu? Mudamos ambas.

Mas de volta ao tal quilt, eu quero muito fazê-lo, e estou dando vários pequenos passos para me aperfeiçoar e aprender técnicas que me permitam fazer um quilt de verdade: melhorar a costura em linha reta para juntar os blocos, melhorar a margem de costura para conseguir que as peças fiquem alinhadas… Por enquanto não consigo… fica tudo um pouco torto. Mas estou decidia a superar o meu medo de errar e o meu perfeccionismo paralisante.

Quero aceitar o que de imperfeito há em mim, parar de estudar e tentar e de fato fazer algo igualmente imperfeito mas concreto. Quando soube que estava grávida fiz de tudo para aprender alguma técnica artesanal, tomei aulas (Santa Cibele!), aprendi a bordar e fiz um lindo bordado. Dai travei. Fiz mil planos… nada parecia bom.

Mas isso foi no passado, agora, em busca do meu sonho guru, a estória é outra: usei o bordado em um cobertor bem simples, lindo e … imperfeito.

The love wich reachs me from a distance

Tonight, after a long day of work, with a terrible headache reminding me that a sinus crisis is on its way… I got home to realize that tomorrow is my daughter’s party at school ( São João!)… And that I need to get somethings done: the braids for the hat, the ribbons for the hat and the dress… the works! All to make her  the prettiest “caipirinha” I’ve ever seen.
So, I finish everything by 10 p.m.
And all the sudden… I realize my mom did the same thing many times… I never realized it. I never noticed, never thought about all that it took to  wear all those beautiful dresses she always made me. But I realize that even more than work, it took a lot care, a lot of love.
And suddenly I feel it all over, so much love, crossing time and distance to embrace and comfort me.
Thank you mom! I love you too!

*tomorrow the pictures of my caipirinha.

***

Hoje a noite, depois de um dia longo de trabalho, com uma dor de cabeça terrivel me lembrando que uma crise de sinusite está a caminho, chego em casa e lembro que amanhã é festa de São João na escola da minha filha… E claro, preciso arrumar os laços de fita para o vestido e para o chapéu, tranças para o chapéu (detesto essas novas tranças finas demais… resolvi fazer as minhas), ahhhh e o bolo de aimpim! Enfim, às 10 da noite termino de fazer tudo, quase tudo… acordo as 6 da manhã para assar o bolo!

E de repente me dou conta: quantas vezes minha mãe fez isso? Nunca notei, nunca me dei conta. Nunca me perguntei o que custou a ela, para que eu tivesse o vestido mais bonito e mais bem feito da festa. Mais do que o trabalho, agora tenho certeza,  que custou muito cuidado, muito carinho, muito amor!

E de repente me sinto rodeada por todo esse amor. Um amor que atravessa o tempo e a distância para me abraçar e confortar.

Obrigada mãe! Também te amo!

*amanhã posto fotos da minha caipirinha.

O que, afinal de contas, é um caruru?

O caruru, na minha modesta opinião, não é uma, mas são três coisas… tudo ao mesmo tempo agora.

A primeira e mais óbvia definição é que o caruru é um prato tradicional bahiano, feito à base de quiabo, camarão seco e azeite de dendê.

Essa é a parte que todo e qualquer não-bahiano entende o conceito. O caruru é uma comida.

Mas a palavra caruru, também nomeia um conjunto de comidas servidas num mesmo prato, dentre elas o próprio caruru feito de quiabo e tal e coisa. Imagine um prato de porcelana imaculadamente branco… imaginou? Agora vamos começar a compor o prato de caruru, para simplificar, começe colocando uma colher de caruru (aquela parte feita de quiabo), ajeite direitinho para não ocupar muito espaço no prato, afinal isso é só o começo. a seguir uma colherada de arroz branco, outra de feijão fradinho, uma de farinha amarela, outra de vatapá… não mistura nada, cada coisa no seu cantinho. Ainda falta o xinxin de galinha – uma galinha preparada com camarão seco também.

Pronto, essa é a parte simples.

Mas não termina aqui… O caruru é também uma festa. Em geral uma pessoa oferece um caruru para retribuir, compartilhar uma graça recebida. Em troca do pedido divino concedido, essa pessoa compartilha suas bençãos com os outros. Tanto maior a graça maior o caruru. O tamanho do caruru, que também está relacionado às posses das pessoas pode ser medido em quiabos: um caruru pequeno é de 300 quiabos, um caruru médio de 600 quiabos, uma caruru grande, 1000 quiabos.

Pois bem, no dia do caruru a casa do anfitrião ou da anfitriã, fica aberta a quem chegar… ou pelo menos era assim no meu tempo lá em Paripe. Hoje em dia com tantos portões, muros altos e porteiros eletrônicos, não sei como alguém pode manter a casa aberta… Mas lá em Paripe… A casa ficava aberta e a regra sempre foi: não se nega comida a ninguém enquanto tiver caruru.

Se o caruru é de Santo, ninguém come antes dos sete meninos. Isso quer dizer que, se quem está oferecendo o caruru é praticante de uma religião afrobrasileira, o ritual exige que sete meninos comam antes de todos, eles sentam ao redor de uma grande bacia no centro da sala e comem com a mão. Eu nunca quis ser um dos meninos… achava meio estranho… Mas só porque não podia menina, eu sempre tinha uma grande curiosidade.

O caruru sempre começava muito cedo na minha casa. Todas as mulheres da família vinham ajudar a preparar o caruru da casa da minha vó.

Antes da festa à noite minha avó vinha segurando a saia do vestido cheia de doces… Jogava para cima… ela gritava uns versinhos e a criançada respondia em coro:

– galinha gorda!

– gorda!

– Pra cima ou pra baixo?

– Pra cima!

E pra cima ela jogava as balas, nós nos acotovelavamos catando os doces pelo chão.

Sinto falta de tudo isso… E também sinto falta da minha avó. Hoje mais do que nunca.