Casamento Filipino

Sempre usei o termo “relações abusivas” para descrever aquelas relações em que um dos envolvidos impõe suas vontades e valores ao outro. Tive conversas infinitas com amigas sobre como sair de relações amorosas desta natureza.

Pois é… Agora sou eu quem me encontro em uma dessas relações e sem enxergar uma saída para a situação. Já vou esclarecendo que a relação não é de natureza amorosa… estou falando do meu caso com a COMGÁS.

A relação já começou mal: é arbitrária, o casamento é arranjado, e eu a noiva submissa, sigo para o altar com o mesmo ânimo que iria ao meu funeral.

***

 No dia 17 de Agosto, entrei em contato com a COMGÁS e solicitei a ligação do gás na minha residência, no início – como em todo início – fiquei encantada: meu atendimento foi agendado para o dia seguinte!

No dia seguinte o “gasista” foi à minha casa, mas não conseguiu fazer a instalação. Frustração… Ele não deixou um relatório sobre as razões da não-instalação, apenas comentou com o zelador do prédio, que a instalação da tubulação não estava correta. Entrei em contato com a COMGÁS no mesmo dia para saber detalhes do que fazer, mas o “gasista” ainda não havia entrado em contato para encerrar a nota de serviço.

Ah… tudo bem, ele não teve tempo ainda… acho que ele teve um dia cheio. A atendente me informou que o prazo para encerramento da nota era de 24 horas.

Pois é… hoje é quarta-feira, dia 23 de Agosto. A nota de serviço ainda não foi encerrada, estou a 24 minutos no telefone com o atendimento da COMGÁS e continuo com a sensação de que de que estou sendo enganada. Como o prazo para encerramento da nota de serviço: 48 horas… úteis. Eu não estou familiarizada com esta terminologia e pergunto à atendente o que são 48 horas úteis, porque o prazo de 48 horas já venceu… a não ser que só esteja contando as horas comerciais do dia, o que daria à COMGÁS um prazo de 6 dias úteis para encerrar o nosso casamento, digo a nota de serviço.

Não sei porque acabei de lembrar da minha colega de quarto das Filipinas… naquele país os casamentos são indissolúveis e os dois únicos motivos aceitáveis para encerrar um casamento são a morte ou a loucura.

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A mesma velha (e triste) história

Esta semana em que estamos recebendo os e-mails diários do Dialisson nos atualizando sobre os fatos em Santa Catarina, nos chegam as informações sobre outros desastres acontecidos em terras de além mar. Fico pensando, e me atrapalha pensar… na urgência da tarefa de preparar o OASIS para atender necessidades emergentes para situações emergentes. O primeiro passo está dado: uma rede de pessoas dispostas a agir imediatamente, com os recursos disponíveis, para transformar em espaços físicos saudáveis lugares que foram atingidos por alguma mazela social, econômica, ambiental.

Reconheço que diante do volume, do barulho, do ruído assombroso dos desastres dos quais estamos falando, tendo a reagir da forma que queremos combater, reafirmando as crenças sedimentadas: fugindo, desmaiando – reações biológicas naturais diante de situações de perigo.

Me manter conectada com a energia da proatividade, não perder o foco no que posso fazer agora, neste momento,é o meu desafio de hoje.

A junção dos relatos do Dialisson com as fotos dos estragos causados pelo tufão nas Filipinas me deixaram pensando muito sobre o que aconteceu com o projeto de lei para o novo código ambiental de Santa Catarina. Ao que parece não posso confiar apenas no bom senso humano: não somos sensatos! Não reconheceríamos a tal sustentabilidade nem que ela nos pisasse a cabeça… Eu tenho dificuldades de tomar decisões no hoje de forma a garantir que não me prejudique amanhã… é assim na educação da minha filha, e olha que estou aprendendo muito! Quero dizer com isso que apesar da palvra constar do dicionário a muito tempo, ainda estamos construindo em nós o sentido de seres sustentáveis. Enquanto isso vamos sofrendo as consequências da nossa “insustentável forma de ser”.

As imagens do Ondoy chegaram tão vívidas à minha tela de computador! E quase ao mesmo tempo que me chegaram os relatos do que aconteceu em Santa Catarina… Não posso evitar pensar que o mundo inteiro está irmanado nisso, e que o OASIS que construímos aqui pode ser uma resposta para todos os lugares.

A ponte que foi construídadurante o OASIS não caiu! Este é para mim um sinal poderoso de que estamos no caminho certo.

A maré de destruição - foto do site Big Picture

Onodoy 2

Lia e a ética

“ A ética não serve para nenhuma  competência específica, mas para a vida”

Com esta frase, estarrecedora, começa  grande maratona de discutir e descortinar séculos e séculos da história das civilizações humanas buscando a compreensão dos eventos que nos trazem até os dias de hoje através da lente da ética.

A frase me parece estarrecedora, por causa da simplicidade aguda: não serve para nada senão a vida… o que seria mais importante, grave, crucial?

Lia Diskin com esta frase me faz a um só tempo divagar e permanecer atenta a grande aventura de nos descobrirmos seres humanos únicos em nossa cultura e valores, e ao mesmo tempo – sem com isso diminuir em nada o valor das nossas crenças e cultura – enxergar os caminhos e fatos que construíram crença e cultura como são.

Os três dias de aula cobriram um vasto período da história da nossa civilização, que não está completamente coberto nesta síntese, que se propõe a tratar de forma profunda do que me calou fundo na alma, e que ainda agora reverbera: tradição, ética e moral como fenômenos humanos não naturais, fenômenos que aconteceram como forma de garantir a vida humana em situações extremas que se apresentaram ao longo da história.

O objetivo proposto é o de construir no final de semana cerca de 4 conceitos de forma clara, intrínseca, que os compreendemos e nos apossemos deles de tal forma que passem a ser parte de nós mesmos.

Posto este objetivo, Lia nos conduz por uma contextualização de nós mesmos: quem somos? Val? Raquel? Manoel? Não… Não apenas isso. Nas suas palavras somos fruto de uma experiência urbana; uma espécie jovem antes da qual experiências de vida de bilhões de anos se desenvolveram e se desenvolvem suas estratégias de viver neste mesmo planeta casa que chamamos Terra.

Aqui faço um primeiro parêntese para honrar e reconhecer não a linhagem milenar que se enfileira atrás de mim, mas a linhagem de mulheres que estão logo aqui atrás, à frente e ao lado, cujas mãos ainda posso sentir tocar meu ombro, que me aconselham e me nutrem… quase sinto passar por mim a tal “experiência de vida” indo alcançar Lia, minha filha, que um dia também deixará sua indelével marca no grande caldeirão desta experiência inacabada e recente.

Essa estória de quem sou, dos meus gostos por coisas eletrônicas que se acumulam na gaveta do móvel da sala, vem se revelar resultado de um movimento tão maior do que eu, que aconteceu a tanto tempo atrás… Quando nós, nômades que éramos como espécie, descobrimos  formas de nos fixar em um só lugar. Com a sedentariedade veio a possibilidade de acumular bens, e isso, agora eu vejo, trouxe consequências importantes para a civilização… do tipo que afetam diretamente quem eu sou e quem você é.

“Não há como ser auto-suficiente em uma experiência nômade”. Eu ouço a frase e analiso mentalmente… me recuso a acreditar que este início, esta mudança na forma de vivermos enquanto grupo desembocaria em uma sociedade onde a auto-suficiência, ou a ilusão dela, faz muito difícil reconhecer o valor do outro.

As mudanças, quando consideramos não a mudança que sofre um indivíduo, mas as mudanças que sofre uma civilização, são de natureza complexa… e às vezes controversa. Assim, o homem se torna sedentário, acredita na sua auto-suficiência, mas esta mudança comportamental, carrega em seu cerne um medo ancestral e inconsciente(?): o medo da escassez.

Antes de seguir adiante, me arrepio e assusto com a descoberta de uma coisa tão velha quanto o tempo, mas que se revela para mim nesta sala de aula, tão fresca como se tivesse acabado de acontecer – a mistura é bombástica: a capacidade de acumular somada ao medo da escassez…

Antes no entanto de nos afastarmos tanto em direção ao ser ocidental e sua vida como vivida hoje, tendo em vista que chegaremos à discussão sobre a ética e sua importância, é importante nos debruçarmos sobre outro conceito importante: a tradição.

Para entender o conceito de tradição nos grupos humanos, e sua importância é preciso contextualizar o tipo de vida então, para não corrermos o risco de ler a importância da tradição sob a ótica dos nossos dias, e Lia nos conduz a este contexto.

Começa por dizer de forma muito sucinta e simples: tradição é um repertório de leis, norma e procedimentos. Num primeiro momento este conceito não faz sentido algum para mim… Não sinto no meu corpo nenhum aprendizado… Mas à medida que sigo a professora no caminho de visualizar estes grupos humanos e sua forma de vida, a capital importância da tradição se revela.

São grupos humanos frágeis… a precariedade da vida é tal que um movimento pode por em risco a vida de todo um grupo. A tradição é uma forma de garantir a estrutura do grupo, que cada um saiba o seu papel, que possam contribuir para a segurança do todo. A tradição permite que a vida flua, que o sistema funcione. Mas não sem um preço: porque os riscos são tão grandes, as inovações, as exceções, a singularidade não são bem vindas. A tradição é um sistema fechado, que não permite novos códigos comportamentais.

A ameaça à tradição é uma ameaça à própria vida e por isso o castigo é pesado: o banimento.

Não fiquei muito impressionada com o tal castigo a princípio… banimento não me pareceu algo tão ruim, até que mais uma vez, colocamos o conceito no contexto adequado, trazendo uma perspectiva que aproximava a idéia do banimento de sentimentos bem conhecidos até mesmo nos dias de hoje.

O exemplo foi banal: o pai que expulsa a filha de casa e diz “ a partir de hoje eu não tenho filha”. O banimento é pior que a morte, porque rouba do indivíduo a possibilidade de ser já que lhe tira o direito de seguir carregando tudo o que lhe deu identidade até então: o banimento expulsa o ser humano do território que o caracteriza – seu nome, seu lugar, sua família, sua estória. O banido não tem direito a nada disso, porque nunca existiu.

Estes conceitos estão ligados entre si: grupo, tradição, banimento… e criam o cenário para a compreensão de um outro conceito, o tabu.

Não é difícil compreender no cenário descrito até aqui, porque tudo que estava for a dos limites da aldeia, do conhecido, e consequentemente seguro, era extremamente assustador. Esse espaço do desconhecido, lugar de perigos inomináveis, era o território chamado de tabu, e para lá eram enviados os banidos.

Dito tudo isso não é difícil imaginar que os grupos tradicionais, onde o que se destaca por não seguir a tradição e expulso para um território assustador, se compõe de semelhantes, e peca pela falta de diversidade.

Neste ponto, nos afastamos deste cenário, para ampliar nossa visão e buscar um entendimento maior, mais acurado e mais completo das civilizações. Assim a partir daqui nos debruçamos sobre uma realidade diametralmente oposta.

As cidades portuárias são por natureza, lugares de diferenças, de diversidade. A heterogeneidade que caracteriza este cenário é tal que exige um mediador para que seja possível a interação entre diferentes. É neste contexto que nasce a ética.

A ética não tem o objetivo de modificar comportamentos, mas de auxiliar a compreensão de um outro tão diverso que um indivíduo sozinho, com base apenas na sua experiência pessoal, não tem como decifrá-lo.

De um cenário portuário onde indivíduos representantes das mais diferentes culturas interagem constantemente em relações comerciais, onde o entendimento é necessário para que estas relações aconteçam da melhor forma possível, para um cenário onde mais uma vez encontramos muita diversidade, onde indivíduos de culturas diferentes se relacionam, mas desta vez por motivo diferente.

Falamos do vasto mundo por onde o império romano estende suas asas. Apesar de imaginar diversas relações acontecendo entre os povos dominados e os romanos, inclusive comerciais, a relação que se ressalta é de colonização.

Governar tamanha diversidade é muito difícil e complexo, para que possa ser feito pela tradição, especialmente quando os povos dominados já tem suas próprias tradições.  A natureza da relação pressupõe ainda a necessidade de um código normativo e não aberto como a ética. O contexto pede uma solução que promova a obediência dos povos dominados. “toda moral é normativa” , e a obediência às normas se dá por medo da punição.

Muitas vezes os resultados de ações tomadas a partir de tradição, de um código moral ou ético, podem ser semelhantes, independentemente da grande diferença de processo.

Este final de semana uma estória passada em um filme (do qual não sei o nome), me chamou à atenção exatamente por me parecer expressar uma situação em que indivíduos e grupos movidos, uns por razões morais, outros éticas e outros ainda de tradição, acabaram por envolver-se  em uma situação conflituosa.

Dois homens vão pescar em uma região desolada dos Estados Unidos. Eles haviam preparado a viagem com grande cuidado e expectativa. Quando lá chegaram, encontraram o corpo de uma mulher. Os homens acharam que não poderiam deixar o corpo da mulher à deriva no rio e por isso resolveram amarrá-lo à margem, sem no entanto retirá-lo da água ou alterar a cena do crime.

Os homens seguiram seus planos de pescaria como previsto, tiveram um ótimo dia juntos, pegaram muitos peixes, estavam felizes e quando voltaram para sua pequena cidade e relataram às autoridades que haviam encontrado um corpo no rio.

Quando o fato tornou-se público, os dois homens viram-se no centro de uma crise de proporções assustadoras: toda a cidade estava chocada diante do comportamento deles, diante do fato deles terem podido pescar tranquilamente em tal situação.

A situação se agravou ainda mais porque a mulher era uma indígena , sua tribo se revoltava com a situação e os homens eram acusados de racismo.

As vidas destes homens viraram um inferno:  sua amizade ficou abalada, as suas famílias entraram em crise, o casamento de um deles não resistiu a tamanha crise, a cidade inteira era hostil para com eles.

A meu ver, este filme relata uma situação que vivemos hoje, quando moral, ética e tradição fazem parte do nosso repertório, e fazemos uso delas para nos apoiar em nossas tomadas de decisão, mesmo que isso não implique muita reflexão.

Acho que nesta situação, os dois homens, a sociedade e a tribo fazem uso, respectivamente, da ética, da moral e da tradição, para tomar decisões.

A perplexidade com que cada um dos protagonistas desta estória encara o outro denota e exemplifica a complexidade das relações atuais, e em última estância o nível de complexidade que alcança esse projeto inacabado, em constante construção e transformação, que é o ser humano.

Val Rocha