Doce de puta

É esse mesmo o nome do famoso doce de banana em rodelas, ou como diz a minha mãe, em rodinhas.

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Não ponho a mão no fogo, mas dou a referência: foi Jorge Amado quem disse, que o nome do doce é esse e se deve ao fato de que este doce é a sobremesa sempre presente nos prostíbulos da Bahia. Ou pelo menos naqueles retratados em sua obra, eu diria.

Não lembro se mencionou o senhor Jorge Amado, que o doce também frequentava e continua frequentando as casas das senhoras de bem, frequentadoras da igreja e tementes a Deus.

Não conheço muito das casas dos endinheirados, mas em casas de periferia em Salvador, posso afirmar com certeza: o doce de banana em rodinhas é frequentador assíduo.

Aqui na minha casa sempre tem banana: todo mundo adora! Mas como temos o olho maior que a barriga, compramos mais do que precisamos. A banana faz jus à fama de fruta perfeita, mesmo quando não comemos a tempo ela se transforma no mais delicioso dos bolos ou ainda doce. Mas confesso que esta é uma daquelas receitas que nunca ousei fazer, ou melhor, tentei uma vez e foi um desastre.

As receitas de baiano são sempre assim: “muito fácil minha filha, não tem como errar!” Falta completar com o “para quem sabe”. Pois eu, que não sei de quase nada, volta e meia erro em algum detalhe.

Desta vez não. Desta vez acertei em cheio na consistência, na cor ma-ra-vi-lho-sa, e no cheiro que lembra tanto a minha casa.

O doce é muuuuuuito doce. Lá em casa a gente come com creme de leite, ou coloca dentro do pão de sal (pão francês). E para não errar, siga a receita e faça o doce em uma panela de alumínio.

Ingredientes

3 dúzias de banana;

500 gr de açúcar cristal

água até cobrir as bananas

Modo de fazer

Cortar as bananas em rodelas, colocar todas em uma panela de alumínio com o açúcar e cobri com água. Leve ao fogo baixo e mexa de vez em quando. Deixe cozinhar até que a banana mude de cor, a cor final é quase púrpura.

Recomendação da minha mãe: não mexa o doce com colher… quando achar necessário, segure a panela pelas alças e dê pequenos solavancos para girar o conteúdo sem despedaçar as bananas. E prepare-se pois demora muito mesmo, algumas horas, até o doce ficar pronto.

Acho que deve ficar muito bom acrescentar algumas especiarias, eu recomendo canela e cravo da índia, vou experimentar da próxima vez. Se preferir se manter fiel à receita original… é isso ai.

Mas cuidado, hein? Nestes dias de zelos exacerbados pela moral familiar você corre o risco de sofrer represálias por servir um doce tão mundano.

Speculaas, ou quase

*originalmente publicado em Cocinar & Disfrutar, blog de amigos sobre algo que amamos: comida!

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Sempre quis fazer umas arvorezinhas de biscoitos de natal… ainda não foi desta vez que deu certo o formato, mas a receita funciona, os biscoitos são deliciosos e o cheirinho, hum… o cheirinho transforma a casa em lar!
Ingredientes:
1 Kg de farinha de trigo
400 gr de açúcar mascavo
400 gr de manteiga
4 ovos
* Acrescentei 1 colher de chá de speculaas – uma mistura de especiarias típica da Holanda – mas você pode fazer a sua própria mistura juntando gengibre, cardamomo, canela e o que mais você gostar!
Modo de preparar:
Bata o açúcar e a manteiga e acrescente os ovos um a um até obter um creme liso e fofo. Você pode usar a batedeira ou um fouet para essa etapa.
Coloque a farinha em uma superfície, abra um espaço no centro, como se estivesse criando um vulcão, e ali no meinho, coloque a mistura da manteiga,ovos e açúcar, aos pouquinhos. Vá misturando com as mãos até que toda a farinha tenha absorvido toda a parte líquida e a massa tenha uma aparência homogênea e tenha liga. Depois disso eu costumo deixar a massa na geladeira por pelo menos meia hora para facilitar a próxima etapa.
Separe a massa em umas 5 porções – isso foi uma dica da minha querida Emi Tanaka – isso vai facilitar o trabalho. Utilizando um rolo, abra a massa sobre uma superfície enfarinhada e deixe com cerca de 1/2 centímetro de espessura. Depois corte os biscoitos com o objeto da sua preferência: um cortador de biscoitos, um copo, o que tiver à mão. Na hora de transferir os biscoitos para uma assadeira untada ou forrada com papel manteiga, utilize uma espátula ou uma faca larga para te ajudar.
O forno deve estar pre-aquecido e os biscoitos são assados em fogo baixo por cerca de 8 minutos.
Fiz a metade da receita e rendeu uns 50 biscoitos.
 
A receita original quem me deu foi a Ariane Mattes.

Cheirinho de café com amizade!

Hummmm…. tem coisas que precisam ser cultivadas, curtidas, nutridas para alcançar sua melhor versão. Isso é verdade para amizades e algumas comidas, hoje tive o melhor dos dois!

Dois amigos muito queridos me deram um presente muito singelo, sutil e especial: uma fava de baunilha. Hoje a noite abri a fava no sentido longitudinal e pela primeira vez na vida dei de cara com a Sra. Baunilha, responsável pelo saber que adoro em tantas sobremesas, como o creme brulee e o bolo de chocolate sueco (só em inglês).

Quando você abre a fava o que encontra lá dentro é quase um pozinho, mas não se engane, são as sementinhas de baunilha as responsáveis pelo maravilhoso perfume.

Depois disso foi só raspar o conteúdo e misturar no açucar granulado, colocar tudo (inclusive as favas) em um poto hermeticamente fechado e esperar por duas semanas.

O meu estará bom no dia 07 de abril. Vai ser um domigo. Dia perfeito para café com açucar de baunilha e um bolo de banana… só pra começar! 🙂

As fotos são daqui e daqui.

Para 2 xícaras de açucar (cerca de 500gr) utilize 1 fava de baunilha. Se quiser saber mais sobre o açucar de baunilha leia aqui ó.

Compartilhando tesouros

Acabei de descobrir e estou a-pai-xo-na-da… não, apaixonadissima!

O blog do Marcelo Bergamo, achei tudo de muito bom gosto e cheio de emoção e detalhes, do jeitinho que gosto. E com receitas! Não podia ser melhor. Mal posso esperar para testar a receita do bolo de maçã com mel este final de semana, quem vier visitar a família que cresceu vai poder conferir… infelizmente não vai ficar lindo assim como o do Marcelo, já que eu não tenho uma forma de bolo legal que nem essa.

Mas o que me encantou mesmo, e aliás o que me levou ao blog, foi a história do jantar oferecido a uma amiga. Vi no menu, na apresentação dos pratos, na escolha das cores, um capricho e um carinho que me comoveram. Tudo isso me lembrou as minhas próprias amizades e como eu adoraria fazer um almoço ou jantar como esse para honrar  pessoas que fazem parte da minha vida e que só por existirem acrescentam cor aos meus dias.

Não precisa acreditar nas minhas palavras… leia aqui história sob o ponto de vista do Marcelo e aqui sob o ponto de vista da Glau do blog Quitandoca.

E para te inspirar algumas fotos do Blog do Bergamo*:

*Autoria das fotos é da Glau do Quitandoca.

Um afago na estima

Descobri: o melhor jeito de se sentir bem… é fazer coisas que te fazem sentir bem, e que fazem os outros se sentirem bem também!

O cheese cake nem estava tão bom assim… acho que dessa vez coloquei muito pouco açucar, e a mistura de queijos não foi a mais feliz, mas… fiz com muito carinho para a minha querida comunidade, e eles adoraram.

Isso me faz bem: oferecer, cuidar, acarinhar as pessoas a quem quero bem, e vamos e convenhamos, o danado do cheesecake estava bonitinho!

A receita é a seguinte:

Para fazer a massa, você pode fazer uma massa frola, mas se não for muito versado ou versada na cozinha, faz a massa de biscoito de maizena (50gramas de manteiga para 100 gramas de biscoito triturado), para o recheio: 3 medidas de cream cheese é o que está na receita original, quem me deu foi a Daniela Caieron de Vacaria, aliás, foi quem me ensinou a paixão pelo cheese cake. Mas ela mesma me deu a dica: o cream cheese é muito caro! Podemos substituir as medidas. Eu gosto de usar: 1 medida de creme de leite fresco, 1 medida de requeijão cremoso e 1 medida de cream cheese + 1/4 de xícara de açúcar + 2 colheres de essência de baunilha + 3 ovos.

Ah… você coloca a massa na forma e leva ao forno por 5 minutos, depois coloca o recheio e assa por 30 minutos em fogo baixo, depois disso + 10 minutos em fogo alto para dar aquela douradinha.

O que, afinal de contas, é um caruru?

O caruru, na minha modesta opinião, não é uma, mas são três coisas… tudo ao mesmo tempo agora.

A primeira e mais óbvia definição é que o caruru é um prato tradicional bahiano, feito à base de quiabo, camarão seco e azeite de dendê.

Essa é a parte que todo e qualquer não-bahiano entende o conceito. O caruru é uma comida.

Mas a palavra caruru, também nomeia um conjunto de comidas servidas num mesmo prato, dentre elas o próprio caruru feito de quiabo e tal e coisa. Imagine um prato de porcelana imaculadamente branco… imaginou? Agora vamos começar a compor o prato de caruru, para simplificar, começe colocando uma colher de caruru (aquela parte feita de quiabo), ajeite direitinho para não ocupar muito espaço no prato, afinal isso é só o começo. a seguir uma colherada de arroz branco, outra de feijão fradinho, uma de farinha amarela, outra de vatapá… não mistura nada, cada coisa no seu cantinho. Ainda falta o xinxin de galinha – uma galinha preparada com camarão seco também.

Pronto, essa é a parte simples.

Mas não termina aqui… O caruru é também uma festa. Em geral uma pessoa oferece um caruru para retribuir, compartilhar uma graça recebida. Em troca do pedido divino concedido, essa pessoa compartilha suas bençãos com os outros. Tanto maior a graça maior o caruru. O tamanho do caruru, que também está relacionado às posses das pessoas pode ser medido em quiabos: um caruru pequeno é de 300 quiabos, um caruru médio de 600 quiabos, uma caruru grande, 1000 quiabos.

Pois bem, no dia do caruru a casa do anfitrião ou da anfitriã, fica aberta a quem chegar… ou pelo menos era assim no meu tempo lá em Paripe. Hoje em dia com tantos portões, muros altos e porteiros eletrônicos, não sei como alguém pode manter a casa aberta… Mas lá em Paripe… A casa ficava aberta e a regra sempre foi: não se nega comida a ninguém enquanto tiver caruru.

Se o caruru é de Santo, ninguém come antes dos sete meninos. Isso quer dizer que, se quem está oferecendo o caruru é praticante de uma religião afrobrasileira, o ritual exige que sete meninos comam antes de todos, eles sentam ao redor de uma grande bacia no centro da sala e comem com a mão. Eu nunca quis ser um dos meninos… achava meio estranho… Mas só porque não podia menina, eu sempre tinha uma grande curiosidade.

O caruru sempre começava muito cedo na minha casa. Todas as mulheres da família vinham ajudar a preparar o caruru da casa da minha vó.

Antes da festa à noite minha avó vinha segurando a saia do vestido cheia de doces… Jogava para cima… ela gritava uns versinhos e a criançada respondia em coro:

– galinha gorda!

– gorda!

– Pra cima ou pra baixo?

– Pra cima!

E pra cima ela jogava as balas, nós nos acotovelavamos catando os doces pelo chão.

Sinto falta de tudo isso… E também sinto falta da minha avó. Hoje mais do que nunca.